Hoje recebi uma newsletter deliciosa de ler. Resumindo, o autor conta sobre o pai, que usava uma peruca e sofria horrores para esconder esse fato da sociedade.
Dei risada quando ele conta que o pai teve a peruca levada no mar e a mãe se jogou sobre ele, colocando uma toalha em sua cabeça, de forma que todos pensaram que ele teve um acidente, apenas para o levar de lá e ninguém ver que ele usava uma peruca.
Essa história me levou à minha infância! Venho de uma família MUITO miscigenada e numerosa. São muitas mulheres (apenas para exemplificar quando eu falo muitas mulheres: minha vó tinha 11 irmãs e teve 7 filhas). Entre tias avós, tias, primas, primas de segundo e terceiro grau, a “sorte” na vida vem na forma de se nasceu com cabelos lisos ou não.
Eu não tive sorte! E, com ajuda e influência das minhas tias, comecei a alisar os cabelos quando eu tinha 12 anos de idade.
A newsletter me lembrou a história de uma tia, que se casou na década de 70 e nunca, nunca, nunca saia de casa sem escovar os cabelos. Dormia de “toca” todas as noites. “Toca” era como elas chamavam quando enrolavam os cabelos ao redor da cabeça com meio milhão de grampos para ele permanecer liso. Quase todas faziam isso, mas essa tia perdia duas horas todos os dias antes de dormir com um ritual sem fim para que seus longos cabelos pretos ficassem lisos com o da cantora paraguaia Perla.
Seu marido nem desconfiava de seu segredo e vivia passando as mãos em seus cabelos e dizendo que eram os cabelos mais lindos que ele conhecia.
Se casaram e foram fazer lua de mel em Florianópolis. Uma viagem dos sonhos para a moça de família simples que ainda nem conhecia o mar!
MAS, ele insistiu pra ela entrar no mar, os cabelos começaram a se revoltar, meu tio olhou para a esposa e perguntava: o que está acontecendo com seus cabelos? Minha tia enrolou uma toalha, saiu correndo dizendo que era “alergia ao mar”, voltou pro hotel, depois procurou um salão para fazer escova e passou o resto da lua de mel dentro do quarto.
Meu tio nunca soube que ela não tinha cabelos lisos. Ela só começou a entrar no mar novamente quando começou a alisar os cabelos de forma química.
A filha dela nasceu “com sorte”, eu não! E ela me levou a um salão para alisar meus cabelos quando eu completei 12 anos.
Corta para minha vida na Alemanha. Eu viajava para o Brasil anualmente e sempre alisava meu cabelo quando estava lá.
Até que cansei. Eu queria ir “pra casa” para ver a familia, comer comidas gostosas, passar tempo com minha vó e tias avós que estavam envelhecendo. Meu marido nunca se importou com meus cabelos.
E então eu parei de ir para o Brasil todos os anos. Eu estava trabalhando, queria conhecer outros lugares e foi ficando difícil de alisar meus cabelos. Fiz uma transição forçada, cortei o alisado e assim fiquei. Quando engravidei tomei a decisão final de nunca mais alisar para que minha filha amasse seu cabelo.
No fim, ela nasceu “com sorte”, cabelos lisos, lisos. Mas meu “cabelo doido” virou minha marca registrada para ela. Ela me desenha com os cabelos sempre super enroladinhos voando maluquinhos ao meu redor e eu amo.
Toda vez que faço chamada de vídeo com minha família alguma tia me diz para ir ao Brasil “cuidar dos cabelos”.
Eu cuido, mas agora o meu cuidar é lavar, hidratar e aceitar. É tão mais fácil.